Com 17 anos, pertencia ao grupo de jovens da paróquia de São Bento de Massamá, e a nossa animadora tomou a iniciativa de nos levar à festa de Natal das Pessoas Sem Abrigo daquele ano.
Mal sabia que iria ser uma experiência tão transformante.
O meu primeiro trabalho de voluntário, foi acolher. Eu recebia os convidados na entrada e entrava com eles no espaço da festa. À medida que íamos caminhando, deveria introduzir e explicar todos os serviços que a comunidade poderia prestar e todos os momentos de lazer que o convidado poderia disfrutar. Desde oferecer roupa, a poder ver um filme ou o canal da tv, desde tomar um duche, a poder lanchar e jantar, tratar da documentação, entre outros. E no fim da apresentação, se eu sentisse abertura por parte do convidado para conversar, assim o faria: sentavamo-nos à mesa, e conversávamos.
Pois bem, ouvi histórias de guerra que deixaram marcas; pessoas formadas que, por este ou por aquele motivo, não sucederam bem na vida, e sucumbiram, acabando na rua; pais sem abrigo a viverem à porta dos filhos que os ignoravam; jovens pais e jovens mães a viver na rua, com muito pouco para dar aos seus filhos…
Podem imaginar o impacto que isto teve num rapaz de 17 anos, em que o meu maior problemam até então, era o colega da turma que me chateava o juízo.
Sei que nesse dia cresci. Cheguei à noite, sentei-me na cama, olhei para tudo o que tinha no quarto, e contemplei a felicidade e a sorte que sempre tive até então. Percebi o esforço que os meus pais sempre fizerem para me dar o melhor. Rezei, e agradeci.

Percebi também, naquele momento, que a distância entre viver numa casa ou viver na rua, não é assim tão grande! Assim mo disseram engenheiros, advogados, militares, que pela festa e por mim passaram, dando o seu testemunho.
Percebi ainda que, sem abrigo é uma condição, não é uma característica. Um sem abrigo, antes de tudo, é uma pessoa. Tem uma história, uma alma e um coração. Deve ser tratado com dignidade, mesmo que o próprio já viva há tantos anos na rua, que se tenha esquecido de que merece ser tratado dignamente.

Apesar de não ter sido voluntário continuamente na Comunidade, regressei, com mais afinco, em 2011. Participei e ajudei na festa, o mais que pude.
No ano seguinte, para minha surpresa, fui convidado a ajudar na coordenação de uma das áreas da festa de Natal. Passei a conviver mais de perto com voluntários notáveis, muito dedicados e afincados na causa da Comunidade. Que prazer enorme foi, e ainda é, fazer parte da equipa de coordenadores.

Mas nesse ano surgiu também outra grande surpresa. Fui convidado a participar na volta. O que é a volta? A volta é um percurso feito por uma equipa de voluntários, levando o saco de sandes que referi, às pessoas sem abrigo, no local onde se encontram.
Estou a ser impreciso. A volta é muito mais que isso.
A volta é algo que qualquer pessoa devia ter a oportunidade de fazer. A volta é perceber o quão desprotegido, carenciado, debilitado um ser humano pode chegar.
Por mais notícias que se leiam ou vejam, por maior contacto que eu tivesse tido com as pessoas sem abrigo na festa, em nada é comparável com o conhecer estas pessoas no seu canto, no seu cartão, no seu alpendre do prédio ou na vitrine de uma loja.
Custou-me muito perceber que, muitos dos locais emblemáticos da cidade onde eu passo de dia, são abrigos à noite. Pessoas que muitas vezes nem me apercebi que ali estavam. Esta indiferença minha, e indiferença geral, chocou-me.
Haver pessoas sem abrigo no Parque das Nações, mais concretamente no Pavilhão de Portugal ou na Gare do Oriente…
Ou por outro lado, pessoas que, mesmo vivendo na rua, conseguem ter a sua higiene cuidada, ter a roupa limpa. Pessoas que nunca imaginaria estarem sem abrigo. Descobri a pobreza envergonhada.

Fiz a primeira volta, e continuei. Ainda hoje nela participo!
Aprendi a levar a alegria e o acolhimento a cantos onde na maioria do tempo, não há.
Aprendi que, muitas vezes, aparecer à noite para dois dedos de conversa, pode ser o momento mais feliz do dia.
Mas também aprendi que, só porque estou cheio de vontade e alegria para ajudar, tenho de respeitar o espaço de cada um e a sua vontade.
Aprendi que, aquilo que para mim é anormal, como é a condição de sem abrigo, para quem vive neste condição, pode ser normal.
Ou seja, aprendi a ajudar quem muitas vezes pensa que não precisa de ajuda.

Todos os dias convivemos com centenas e centenas de pessoas.
Destas centenas, apenas algumas conseguem tomar o passo de mudar de vida. Mas acreditem, nem que fosse apenas uma, valeria a pena.

Espero que, encontres também tu, um cantinho na tua agenda, mas especialmente no teu coração, para seres voluntário, para servires os mais necessitados.

E volto ao início… A interpelação daquele grupo de cristãos foi, transformar o Evangelho de Cristo em ações.
Lembra-te, “A fé realiza-se pela caridade” (Gal 5, 6).