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Foto: Sara Matos

Voluntários distribuem refeições e agasalhos a pessoas sem-abrigo pela cidade de Lisboa. Objetivo é ajudá-los a sair da rua, mas sem pressões

A rua parece estar deserta, mas assim que a carrinha branca para é cercada por quem já sabe de cor quem e o quê estão lá dentro. É a carrinha da Comunidade Vida e Paz e os seus voluntários que distribuem comida pelos sem-abrigo da cidade de Lisboa. Um saco com uma sandes, dois ou três bolos e um copo de leite (que na quarta-feira era com chocolate, às vezes é simples e outras vezes ainda é iogurte – “depende do que nos dão”) são o “quebra gelo para chegarmos a estas pessoas e ajudá-los aos poucos a saírem da rua”, explica Filipe, um dos voluntários da volta C, da Comunidade Vida e Paz.

Esta é uma das três voltas feitas todas as noites pela instituição, que assim chegam aos vários pontos da cidade onde sabem que há pessoas sem casa. Além da refeição, os voluntários também levam roupa e agasalhos que são muito procurados especialmente em noites frias como da última quarta-feira. “Tem algum casaco” foi uma das principais solicitações da noite. A roupa é doada e naquela noite faltavam casacos de homem.

A conversa é outro dos pontos fundamentais da ronda destas equipas. É essencialmente isso que os distingue uns dos outros. Isso mesmo prova Abílio, sem mostrar a cara, deitado na sua cama debaixo de um viaduto próximo de Santa Apolónia, lá vai dizendo que os rapazes e raparigas que ali estão “são fixes”. Enquanto ali estão, Abílio vai tirando dúvidas sobre os impressos que teve de pedir e preencher para “pedir trabalho”. Dá conta que na instituição “foram impecáveis” e lhe deram todos os papéis e informação.

Conta também que “isto de arranjar trabalho está difícil e emigrar está fora de questão”. “Um amigo ligou-me de Cannes, está lá nas obras, e diz que está difícil. Não há trabalho e ele vai ter que vir embora.” Abílio prefere focar-se na empatia com os voluntários a ter que pensar nas coisas difíceis. “São gente boa, há outra equipa que também é fixe.” Esta noite é passada debaixo do viaduto para tentar escapar à chuva que a espaços cai forte e até chega a ser granizo, mas normalmente, Abílio e os colegas ficam junto à estação de Santa Apolónia. “Até se está lá lá agradável, mas com esta chuva não dá”. Ao ritmo da conversa, Abílio foi comendo também o jantar.

Mais à frente, encontramos o cantor “Xico Xicá” que se levanta para uma performance musical que arranca sorrisos aos voluntários. Ao seu lado está o senhor Zé que, muito doente, não se levanta, mas aceita o jantar.

Um outro grupo de quatro homens conversa animadamente e até brinca com o facto de estarem num local para onde o vento arrasta a chuva. “Isto foi ele que não fechou as janelas”, diz um deles. As conversas vão decorrendo num tom informal e nunca é abordado diretamente a hipótese de saírem da rua com a ajuda da Comunidade.

“Essa é uma ideia que vamos plantando aos poucos”, explica Marina, a mais crescida do grupo de voluntários (“já passei dos 50 anos”, limita-se a dizer, embora sem querer tenha acabado por revelar a sua idade certa um pouco lá mais para o fim da noite). Os outros três têm menos de 30 anos – Mateus, o condutor recém-casado e a caminho de ser pai de menina, e Carolina, que faz os relatórios da noite, têm 27 anos e Filipe, o quase médico, 26.

Estão juntos nesta equipa “há dois anos e pouquinho” e faltaram elementos “um mais velho que eu e outros com trinta e tais”, prontifica-se a esclarecer Marina. Todos chegaram aqui porque queriam “dar algo à sociedade”. E já conseguiram tirar pessoas da rua: “É sempre um trabalho de equipa”, sublinham.

“O voluntariado sempre fez parte da minha vida. Não tenho nenhum talento, ao mesmo pode ser que consiga ajudar os outros”, justifica Carolina. E não é que consegue. Olga, que pede esmola junto ao Arco da Rua Augusta, onde a encontramos ainda perto das 23.00, confirma-lhe que ela está a fazer um bom trabalho. “Está sempre bem disposta esta rapariga”, elogia.

Olga queixa-se que com o frio ninguém dá dinheiro. “A melhor altura é no verão, mas aí há muitos a pedir, não sou só eu”, explica. A mulher de 59 anos tem casa, vive com o marido, e pede para “poder comer”. “Isto é assim, se não ganho o suficiente para comer um pão inteiro, como só um bocado, não é?” Olga tenta ver o lado positivo dos dias mais complicados, mas não esconde que depois de “50 anos a pedir, já devia ter direito a ficar em casa e ter dinheiro para comer sem ter de andar a pedir”.

Carolina trouxe um casaco novo a Olga e não sai dali sem garantir que ela fica animada. E perante o desabafo: “Vida de pobre”. A jovem voluntária responde-lhe: “Mas é rica em espírito dona Olga. Vá sorria”. E ela obedece.

In: http://www.dn.pt/sociedade/interior/quando-a-casa-e-um-viaduto-e-o-copo-de-leite-um-quebra-gelo-5745942.html